ESPECIALISTA CRITICA POLÍTICA DO MEC. Para professora, alunos não compartilham a língua nas escolas convencionais - 29/03/2011 às 23h49m. O Globo
RIO - A diretora de Políticas Educacionais e coordenadora de Ensino de Libras na Universidade Federal de Santa Catarina, Patrícia Luiza Ferreira Rezende, disse, em e-mail ao GLOBO, que é contra a forma como o Ministério da Educação executa a política de educação especial no país. "Infelizmente, a Lei da Libras, o decreto e a Convenção Internacional dos Direitos das Pessoas com Deficiência não têm sido cumpridos a contento pelo MEC. A atual política de inclusão insiste em colocar crianças surdas junto com as ouvintes, sem haver um compartilhamento linguístico entre elas. Nesses espaços, as crianças surdas oriundas de famílias ouvintes não adquirem sua língua natural de forma espontânea, como as crianças ouvintes que compartilham a mesma língua da sua família interagindo e obtendo informações e, assim, construindo o conhecimento de mundo, que é aprofundado na escola. Como haver inclusão se não há aquisição linguística pela criança surda?"
Em seguida, a professora, que é surda-muda, explica como o portador de surdez encara o aprendizado do português: "A língua de instrução utilizada em todos os espaços da escola inclusiva é o português. No máximo, os alunos contam com a presença de intérpretes de língua de sinais durante as aulas, o que muitas vezes torna inviável o ensino, já que a criança surda nem sequer domina Libras, muito menos possui conhecimento prévio do mundo por meio de língua nenhuma. Mas a metodologia de ensino continua sendo a mesma para surdos e ouvintes. O português é ensinado como primeira língua aos surdos, descumprindo a legislação."
A acessibilidade é uma condição básica para a inclusão social das pessoas com deficiências ou que tenham necessidades especiais. Numa sociedade que se diz democrática e respeitadora dos direitos humanos, é justo promover políticas de solidariedade e inclusão, estrutura, capacitação e postura para atendimento, formação, qualificação, acompanhamento e garantia de acessibilidade plena.
quarta-feira, 30 de março de 2011
POLÍTICA E INCLUSÃO
Políticas de inclusão de surdos em escolas convencionais. Patrícia Rezende, pedagoga, o globo, 29/03/2011
Infelizmente, a Lei da Libras, o decreto e a Convenção Internacional dos Direitos das Pessoas com deficiência não têm sido cumpridos a contento pelo Mec. A atual política de inclusão insiste em colocar crianças surdas junto com as ouvintes sem haver um compartilhamento linguístico entre elas. Porque nesses espaços as crianças surdas oriundas de familia ouvintes não adquirem sua língua natural de forma espontânea como as crianças ouvintes que compartilham a mesma língua da sua familia interagindo e obtendo informações e assim construindo o conhecimento de mundo que é aprofundado na escola. Como ter inclusão se não há aquisição linguística pela criança surda?
A língua de instrução utilizada em todos os espaços escolares da escola inclusiva é o português. No máximo, os alunos contam com a presença de intérpretes de língua de sinais durante as aulas, o que muitas vezes torna inviável o ensino já que a criança surda nem sequer domina Libras e muito menos possui conhecimento prévio de mundo por meio de língua nenhuma. Mas a metodologia de ensino continua sendo a mesma para surdos e ouvintes. O português é ensinado como primeira língua aos surdos descumprindo a legislação. O próprio Mec se contradiz ao apoiar uma lei que prevê ensino de português para surdos como segunda lei, mas na prática o fazer como ensino de primeira língua.
Além disso, muitas vezes a criança surda é a única na sala, permancendo isolada de seus colegas ouvintes. Mesmo que a escola ofereça curso de Libras às crianças ouvintes, elas não interagem na sua totalidade com as crianças surdas. E os surdos deixam de ter estímulos linguísticos em Libras o que traria o desenvolvimento na etapa de alfabetização adequado. Percebemos o fracasso da escola inclusiva nitidamente ao avaliar o desenvolvimento dos surdos. Temos duas pesquisas, uma feita pela USP e outra pela UFSC que provam esse fracasso. Segundo a pesquisa de mestrado da professora Mariana Campos, da UFsCar, 50% dos alunos de uma escola inclusiva se sentem tristes e frustrados por não encontrarem artefatos da cultura surda na escola.
O discurso do Mec acusa as escolas de surdos de serem segregacionistas. Isso é uma falácia. Cada vez mais, ganha força a tese de que a segregação é promovida pelas políticas educacionais que reconhecem diferentes línguas e culturas. O argumento é plausível, pois recorre à ideia de que, se queremos unir as pessoas, devemos colocá-las juntas e não separadas. Apesar de ser aparentemente aceitável, essa concepção de inclusão rejeita as diferenças culturais dos surdos e as especificidades linguísticas. Existe o imaginário de que basta colocar um intérprete na sala de aula, uma muleta para o aluno surdo, e estaremos promovendo a inclusão e o bilinguísmo. A maioria dos pesquisadores da área defende que reunir surdos em uma mesma escola ou sala de aula não significa separá-los do mundo ou torná-los mais dependentes. Ao contrário, os ambientes linguísticos que favorecem a vivência de uma língua de maneira espontânea fazem com que os sujeitos se tornem mais autônomos, pois eles alcançam o conhecimento de maneira mais rápida e eficaz. A experiência linguística plena faz com que as pessoas se sintam seguras nas interações sociais e na relação com seus pares. Além disso, quanto maior o desenvolvimento linguístico dos sujeitos, maior a capacidade de buscar conhecimento e de utilizá-lo livremente no seu cotidiano. Eles podem, de maneira independente, transitar no mundo e compreendê-lo. Assim, o conhecimento de mundo adquirido pelos surdos por meio uma língua natural, a Libras, seria mais eficiente.
Infelizmente, a Lei da Libras, o decreto e a Convenção Internacional dos Direitos das Pessoas com deficiência não têm sido cumpridos a contento pelo Mec. A atual política de inclusão insiste em colocar crianças surdas junto com as ouvintes sem haver um compartilhamento linguístico entre elas. Porque nesses espaços as crianças surdas oriundas de familia ouvintes não adquirem sua língua natural de forma espontânea como as crianças ouvintes que compartilham a mesma língua da sua familia interagindo e obtendo informações e assim construindo o conhecimento de mundo que é aprofundado na escola. Como ter inclusão se não há aquisição linguística pela criança surda?
A língua de instrução utilizada em todos os espaços escolares da escola inclusiva é o português. No máximo, os alunos contam com a presença de intérpretes de língua de sinais durante as aulas, o que muitas vezes torna inviável o ensino já que a criança surda nem sequer domina Libras e muito menos possui conhecimento prévio de mundo por meio de língua nenhuma. Mas a metodologia de ensino continua sendo a mesma para surdos e ouvintes. O português é ensinado como primeira língua aos surdos descumprindo a legislação. O próprio Mec se contradiz ao apoiar uma lei que prevê ensino de português para surdos como segunda lei, mas na prática o fazer como ensino de primeira língua.
Além disso, muitas vezes a criança surda é a única na sala, permancendo isolada de seus colegas ouvintes. Mesmo que a escola ofereça curso de Libras às crianças ouvintes, elas não interagem na sua totalidade com as crianças surdas. E os surdos deixam de ter estímulos linguísticos em Libras o que traria o desenvolvimento na etapa de alfabetização adequado. Percebemos o fracasso da escola inclusiva nitidamente ao avaliar o desenvolvimento dos surdos. Temos duas pesquisas, uma feita pela USP e outra pela UFSC que provam esse fracasso. Segundo a pesquisa de mestrado da professora Mariana Campos, da UFsCar, 50% dos alunos de uma escola inclusiva se sentem tristes e frustrados por não encontrarem artefatos da cultura surda na escola.
O discurso do Mec acusa as escolas de surdos de serem segregacionistas. Isso é uma falácia. Cada vez mais, ganha força a tese de que a segregação é promovida pelas políticas educacionais que reconhecem diferentes línguas e culturas. O argumento é plausível, pois recorre à ideia de que, se queremos unir as pessoas, devemos colocá-las juntas e não separadas. Apesar de ser aparentemente aceitável, essa concepção de inclusão rejeita as diferenças culturais dos surdos e as especificidades linguísticas. Existe o imaginário de que basta colocar um intérprete na sala de aula, uma muleta para o aluno surdo, e estaremos promovendo a inclusão e o bilinguísmo. A maioria dos pesquisadores da área defende que reunir surdos em uma mesma escola ou sala de aula não significa separá-los do mundo ou torná-los mais dependentes. Ao contrário, os ambientes linguísticos que favorecem a vivência de uma língua de maneira espontânea fazem com que os sujeitos se tornem mais autônomos, pois eles alcançam o conhecimento de maneira mais rápida e eficaz. A experiência linguística plena faz com que as pessoas se sintam seguras nas interações sociais e na relação com seus pares. Além disso, quanto maior o desenvolvimento linguístico dos sujeitos, maior a capacidade de buscar conhecimento e de utilizá-lo livremente no seu cotidiano. Eles podem, de maneira independente, transitar no mundo e compreendê-lo. Assim, o conhecimento de mundo adquirido pelos surdos por meio uma língua natural, a Libras, seria mais eficiente.
DEFICIENTES VISUAIS E AUDITIVOS TEMEM PERDER ESCOLAS ESPECIAIS
SEM PALAVRAS. Deficientes visuais e auditivos temem possibilidade de perder escolas especiais - 30/03/2011 às 00h05m; Duilo Victor
RIO - A comunidade de deficientes auditivos e visuais no Rio se articula contra a possibilidade de encerramento, até o fim do ano, das aulas de ensino básico para crianças e jovens em duas instituições federais: o Instituto Nacional de Educação de Surdos (Ines), em Laranjeiras, e o Instituto Benjamin Constant, na Urca. Só no Colégio de Aplicação do Ines, há cerca de 500 alunos, desde o maternal até o 3º ano do ensino médio. Além disso, nos dois últimos anos, com a prática adquirida no local, 80 professores se formaram no instituto em pedagogia com o uso da Língua Brasileira de Sinais (Libras). Já no Benjamin Constant - fundado há 156 anos, dois antes que o Ines -, cerca de 300 alunos estão matriculados do 1º ao 9º anos do ensino fundamental.
Na internet, há vídeos, manifestos e abaixo-assinados contra o fim do ensino básico nas duas instituições. De acordo com a diretora-geral do Ines, Solange Rocha, a diretora de Políticas Educacionais Especiais do Ministério da Educação, Martinha Claret, veio ao Rio há 12 dias para informar que as atividades do Colégio de Aplicação vão acabar até o fim do ano. A intenção é matricular os alunos portadores de necessidades especiais nas redes estadual e municipal convencionais.
Queremos esclarecer que, para a política de inclusão, o Colégio de Aplicação é fundamental, pois é nele que são formados os professores e elaborado o material pedagógico especializado que vão orientar o ensino em todo o país
- A diretora Martinha foi bem categórica (quanto ao fechamento do Colégio de Aplicação). Mas não estamos em embate com o MEC, e sim em período de negociação. E estamos otimistas. Queremos esclarecer que, para a política de inclusão, o Colégio de Aplicação é fundamental, pois é nele que são formados os professores e elaborado o material pedagógico especializado que vão orientar o ensino em todo o país - diz Solange, que, em maio, levará um parecer oficial ao MEC, com propostas para não fechar o Colégio de Aplicação do Ines.
Diretora: sistema está despreparado
No ano passado, em reportagem publicada na revista da Federação Nacional de Educação e Integração de Surdos (Feneis), há uma declaração atribuída a Martinha em que ela explica ser a favor de uma política de inclusão dos alunos com necessidades especiais na rede convencional. Diz também que colégios como o de Aplicação do Ines são segregacionistas: "As pessoas não podem ser agrupadas em escolas para surdos porque são surdas". A diretora do Ines, por sua vez, argumenta que não há contradição entre a política de inclusão e a existência do Colégio de Aplicação.
- Não somos contra a política de inclusão. Mas o sistema de ensino no país se mostra despreparado para lidar inclusive com os (alunos) ouvintes - diz Solange.
O Ministério da Educação negou ao GLOBO haver uma ação oficial em relação ao Ines ou ao Instituto Benjamin Constant. Disse ainda que, enquanto não houver "algum plano sólido para a reformulação (da educação especial), não há informações para passar".
A diretora de Políticas Educacionais da Federação Nacional de Educação e Integração de Surdos (Feneis), Patrícia Luiza Rezende, coordenadora do ensino de Libras na Universidade Federal de Santa Catarina, é contra o fechamento do Colégio de Aplicação do Ines. "O discurso do MEC acusa as escolas de surdos de serem segregacionistas", disse a professora, que é surda-muda, em e-mail ao GLOBO. "Isso é uma falácia. A maioria dos pesquisadores da área defende que reunir surdos numa mesma escola ou sala de aula não significa separá-los do mundo ou torná-los mais dependentes. Ao contrário, os ambientes que favorecem a vivência de uma língua de maneira espontânea fazem com que os sujeitos se tornem mais autônomos", concluiu.
O futuro do Instituto Benjamin Constant e do Ines será tema de uma audiência pública amanhã, às 14h, na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj). O presidente da Comissão de Portadores de Deficiência Física, Márcio Pacheco (PSC), é a favor da política de inclusão, mas contra o fechamento das escolas:
- Sou a favor da inclusão híbrida, de apoio às escolas municipais e ao funcionamento das unidades especializadas, pois estas são formadoras de professores que poderão atuar depois na rede convencional.
A Secretaria municipal de Educação informou, por meio de nota, que não foi contactada sobre um eventual fechamento do Instituto Nacional de Educação de Surdos e do Instituto Benjamin Constant. O órgão disse ainda que conta com 9.923 alunos portadores de necessidades especiais, sendo 4.508 incluídos em classes regulares. De acordo com a política da secretaria, estudantes com deficiências são incluídos em salas regulares se este for o desejo dos pais. Caso contrário, são encaminhados a salas ou escolas especiais.
COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - A inclusão das pessoas com necessidades especiais é demagógica no Brasil, pois as promessas e boas idéias não são acompanhadas de investimentos nas escolas e nos professores para atender a demanda e o foco da inclusão. O resultado é insatisfação e mais traumas.
RIO - A comunidade de deficientes auditivos e visuais no Rio se articula contra a possibilidade de encerramento, até o fim do ano, das aulas de ensino básico para crianças e jovens em duas instituições federais: o Instituto Nacional de Educação de Surdos (Ines), em Laranjeiras, e o Instituto Benjamin Constant, na Urca. Só no Colégio de Aplicação do Ines, há cerca de 500 alunos, desde o maternal até o 3º ano do ensino médio. Além disso, nos dois últimos anos, com a prática adquirida no local, 80 professores se formaram no instituto em pedagogia com o uso da Língua Brasileira de Sinais (Libras). Já no Benjamin Constant - fundado há 156 anos, dois antes que o Ines -, cerca de 300 alunos estão matriculados do 1º ao 9º anos do ensino fundamental.
Na internet, há vídeos, manifestos e abaixo-assinados contra o fim do ensino básico nas duas instituições. De acordo com a diretora-geral do Ines, Solange Rocha, a diretora de Políticas Educacionais Especiais do Ministério da Educação, Martinha Claret, veio ao Rio há 12 dias para informar que as atividades do Colégio de Aplicação vão acabar até o fim do ano. A intenção é matricular os alunos portadores de necessidades especiais nas redes estadual e municipal convencionais.
Queremos esclarecer que, para a política de inclusão, o Colégio de Aplicação é fundamental, pois é nele que são formados os professores e elaborado o material pedagógico especializado que vão orientar o ensino em todo o país
- A diretora Martinha foi bem categórica (quanto ao fechamento do Colégio de Aplicação). Mas não estamos em embate com o MEC, e sim em período de negociação. E estamos otimistas. Queremos esclarecer que, para a política de inclusão, o Colégio de Aplicação é fundamental, pois é nele que são formados os professores e elaborado o material pedagógico especializado que vão orientar o ensino em todo o país - diz Solange, que, em maio, levará um parecer oficial ao MEC, com propostas para não fechar o Colégio de Aplicação do Ines.
Diretora: sistema está despreparado
No ano passado, em reportagem publicada na revista da Federação Nacional de Educação e Integração de Surdos (Feneis), há uma declaração atribuída a Martinha em que ela explica ser a favor de uma política de inclusão dos alunos com necessidades especiais na rede convencional. Diz também que colégios como o de Aplicação do Ines são segregacionistas: "As pessoas não podem ser agrupadas em escolas para surdos porque são surdas". A diretora do Ines, por sua vez, argumenta que não há contradição entre a política de inclusão e a existência do Colégio de Aplicação.
- Não somos contra a política de inclusão. Mas o sistema de ensino no país se mostra despreparado para lidar inclusive com os (alunos) ouvintes - diz Solange.
O Ministério da Educação negou ao GLOBO haver uma ação oficial em relação ao Ines ou ao Instituto Benjamin Constant. Disse ainda que, enquanto não houver "algum plano sólido para a reformulação (da educação especial), não há informações para passar".
A diretora de Políticas Educacionais da Federação Nacional de Educação e Integração de Surdos (Feneis), Patrícia Luiza Rezende, coordenadora do ensino de Libras na Universidade Federal de Santa Catarina, é contra o fechamento do Colégio de Aplicação do Ines. "O discurso do MEC acusa as escolas de surdos de serem segregacionistas", disse a professora, que é surda-muda, em e-mail ao GLOBO. "Isso é uma falácia. A maioria dos pesquisadores da área defende que reunir surdos numa mesma escola ou sala de aula não significa separá-los do mundo ou torná-los mais dependentes. Ao contrário, os ambientes que favorecem a vivência de uma língua de maneira espontânea fazem com que os sujeitos se tornem mais autônomos", concluiu.
O futuro do Instituto Benjamin Constant e do Ines será tema de uma audiência pública amanhã, às 14h, na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj). O presidente da Comissão de Portadores de Deficiência Física, Márcio Pacheco (PSC), é a favor da política de inclusão, mas contra o fechamento das escolas:
- Sou a favor da inclusão híbrida, de apoio às escolas municipais e ao funcionamento das unidades especializadas, pois estas são formadoras de professores que poderão atuar depois na rede convencional.
A Secretaria municipal de Educação informou, por meio de nota, que não foi contactada sobre um eventual fechamento do Instituto Nacional de Educação de Surdos e do Instituto Benjamin Constant. O órgão disse ainda que conta com 9.923 alunos portadores de necessidades especiais, sendo 4.508 incluídos em classes regulares. De acordo com a política da secretaria, estudantes com deficiências são incluídos em salas regulares se este for o desejo dos pais. Caso contrário, são encaminhados a salas ou escolas especiais.
COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - A inclusão das pessoas com necessidades especiais é demagógica no Brasil, pois as promessas e boas idéias não são acompanhadas de investimentos nas escolas e nos professores para atender a demanda e o foco da inclusão. O resultado é insatisfação e mais traumas.
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
ESPECIAIS E CAPAZES

Especiais e capazes - Manoela Alcântara - Correio Braziliense - 03/01/2011 14:54
Pesquisa aponta que, mesmo com respaldo legal, a contratação de pessoas com deficiência é abaixo do mínimo determinado. Para especialistas, essa realidade é resultado, sobretudo, do preconceito dos recrutadores.
Os passos lentos, a fala embargada e as dificuldades motoras causadas por uma paralisia cerebral não foram suficientes para que Heron Luiz dos Santos, 35 anos, desistisse de entrar no mercado de trabalho. Assim como milhares de brasilienses desempregados, ele sai de casa, no Recanto das Emas, quase diariamente com uma pilha de currículos nas mãos rumo ao Plano Piloto, na esperança de realizar o sonho de trabalhar na área de comunicação e exercer sua paixão: o jornalismo policial. A rotina de bater à porta das empresas já dura quase dois anos. Mesmo depois de ouvir tantos “nãos”, ele se recusa a jogar a toalha.
Heron faz parte de uma triste estatística que contraria as leis de inclusão social do país. Segundo pesquisa do Instituto Ethos e do Ibope Inteligência, divulgada no segundo semestre de 2010, apenas 1,5% dos profissionais das 500 maiores empresas brasileiras é portador de deficiência. Quando o cálculo se refere aos cargos de gerência, a porcentagem é ainda menor: apenas 0,4% dos 13.629 gestores pesquisados. Uma realidade que envolve preconceito e despreparo das empresas contratantes, segundo o sócio-diretor e consultor da Areté Treinamento e Desenvolvimento Profissional, Antônio Carlos Pereira. “Ainda hoje, as pessoas acreditam que incluir deficientes no quadro de empregados significa, também, fazer mudanças estruturais drásticas, gastar muito dinheiro. Isso não é verdade. Nem toda deficiência exige tantas alterações”, diz.
Para ele, esse desconhecimento faz muitas organizações optarem por pagar a multa em vez de contratar. Uma das justificativas dos empresários para não absorver essa mão de obra diferenciada é relacioná-la à falta de qualificação, o que nem sempre é verdade. Existem pessoas com deficiência que investem em qualificação e, ainda sim, não conseguem uma chance para mostrar o que sabem. Heron é formado em jornalismo e já publicou dois livros: O pássaro ferido – contos e poesias e Mário Eugênio: o gogó das sete. Ambos os títulos tiveram suas edições esgotadas.
Heron dos Santos acredita que só não conseguiu arrumar emprego por causa da discriminação. “As pessoas pegam o meu currículo e falam que não têm vaga. Talvez não me chamem pelas minhas dificuldades. Por esse meu jeito de falar, elas acham que eu não tenho capacidade. Mas eu tenho. Só preciso de uma oportunidade”, garante. A chance que Heron e qualquer outra pessoa com alguma limitação na audição, na visão ou física pedem a cada currículo entregue seria também uma oportunidade para as empresas mudarem sua imagem diante do público.
Pesquisa divulgada no início de dezembro passado, pelos institutos Akatu e Ethos, mostram que os consumidores têm preferência por instituições socialmente mais responsáveis e punem as que não se importam com as minorias. Para 80% dos entrevistados, o aspecto que mais conta ponto positivo para a imagem da empresa nesse sentido é a relação de trabalho. Além disso, o desenvolvimento dessa mentalidade e a política inclusiva nas instituições proporcionam a diversidade no ambiente de trabalho. “Quando falamos em contratação de pessoas com alguma deficiência, falamos também de uma mudança cultural. O grande desafio é fazer as organizações perceberem o quanto a variedade é vantajosa”, afirma a sócia-diretora da Rhaiz Soluções em Recursos Humanos, Carmem Cavalcanti.
No Superior Tribunal de Justiça (STJ), por exemplo, a transformação foi nítida depois do convênio firmado com a Associação de Centro de Treinamento de Educação Física Especial (Cetefe) para a inclusão de surdos no mercado de trabalho. Implementado há quase dois anos, o programa já viabilizou a contratação de 120 pessoas. Elas desenvolvem um bom trabalho e vão além. “Depois do ingresso deles, nossa interação melhorou. As pessoas têm boa vontade de ajudar e de realizar funções em grupo. O primeiro objetivo foi a inclusão, mas a presença deles no ambiente de trabalho trouxe muito mais que isso”, afirma o coordenador de registro e processos recursais do STJ, Francisco Coutinho.
Força de vontade
Da mesma forma como acontece para qualquer pessoa que pleiteia uma vaga em alguma empresa privada ou algum órgão público, ter uma formação específica também é exigência fundamental para as pessoas com deficiência. As cotas não devem ser entendidas como protecionismo. Elas exigem pré-requisitos como conhecimento e interesse. E preenchê-los não é tarefa simples. Além do preconceito, existe também a insegurança e a baixa autoestima desses candidatos. “Historicamente, eles foram deixados à margem da sociedade. Passaram por um processo de proteção dos pais, com dificuldade de ter a própria independência. Mas o que os deficientes precisam saber é que todas as pessoas têm limitações. Por isso, os pontos positivos devem ser trabalhados para ficar acima das dificuldades", explica Carmen Cavalcanti.
Segundo o presidente do Instituto Cultural, Educacional e Profissionalizante de Pessoas com Deficiência no Brasil (Icep Brasil), Sueid Miranda, uma alternativa para se profissionalizar é procurar associações ou entidades representativas das pessoas com necessidades especiais. Elas oferecem ajuda psicológica e formação. Além disso, têm contatos no mercado e parcerias voltadas para a promoção da inclusão. “No Icep, por exemplo, firmamos um convênio com os que desejam empregar os deficientes e os capacitamos para aquela vaga específica”, explica.
Com o lema “O Trabalho é o Melhor Processo de Inclusão Social”, a entidade encaminhou ao mercado 941 pessoas e empregou 470 só em 2009. No levantamento parcial de 2010, feito antes do encerramento do ano, 483 deficientes já estavam com a carteira assinada. “Eles são sempre elogiados, chegam no horário e têm um bom-humor que contagia toda a equipe. Quem os emprega não se arrepende”, conta Sueid Miranda.
A contratação, porém, exige força de vontade. Para ingressar em uma carreira é preciso ir além do contentamento com algum benefício oferecido pelo Estado. Atualmente, as pessoas com mais chances de admissão são aquelas com deficiências físicas, auditivas e de visão. Os que mais sofrem são os cadeirantes, pelas dificuldades de acessibilidade, e os que têm deficiências múltiplas.
Construção civil
O Distrito Federal conta hoje com uma considerável oferta de trabalho para as pessoas com deficiência. E os candidatos, desde que tenham os diferenciais exigidos pelo mercado, podem procurar as vagas com as quais se identificam e competir por elas. Só no setor da construção civil , há mais de 120 oportunidades para contratação imediata. Para preencher o sistema de cotas , o Sindicato da Indústria da Construção Civil do DF (Sinduscon-DF), em parceria com o Senai e a Coordenadoria para Inclusão de Pessoas com Deficiência (Corde), está qualificando trabalhadores para que atendam as exigências para atuar no setor.
As primeiras turmas dos cursos de auxiliar de eletricista e auxiliar administrativo estão previstas para janeiro. Em abril, devem ser lançados novas opções de formação. As aulas são gratuitas e estão dividas entre a sala de aula e os canteiros de obras. Após a conclusão, a pessoa com deficiência assina contrato de experiência com empresas do setor. Os interessados podem buscar mais informações no site www.sinduscondf.org.br ou pelo telefone 3234-8310, ramal 225.
Há ainda muitas oportunidades para as áreas de telemarketing e para digitador. A tendência é que sejam ofertadas para essas pessoas vagas para o trabalho com as redes sociais, como Orkut, Facebook e Twitter, cada dia mais comuns na estratégia de divulgação das organizações.
Dicas preciosas - Conheça algumas sugestões para tentar uma chance no mercado de trabalho
» Participe de todos os processos seletivos interessantes e que estejam de acordo com o seu perfil, independentemente de ser destinado a PCDs ou não.
» Faça parte das associações que representam os interesses das pessoas de necessidades especiais.
» Invista em estudos e cursos de formação.
» Comunique-se com profissionais com necessidades especiais por meio de redes sociais.
» Procure associações credenciadas que já tenham contato no mercado de trabalho. Elas fazem, entre outras coisas, um trabalho de qualificação e de recuperação da autoestima.
COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - Na realidade, não é só o preconceito dos recrutadores que atrapalha a inclusão, mas a falta de capacitação dos assistentes que deviam monitorar, acompanhar e assistir estes trabalhadores especiais, e dos gestores que trabalham na supervisão, dada às características, necessidades e estado físico e emocional de cada um. Eu passei por um problema deste na Empresa Zaffari Bourbon de Porto Alegre onde os recrutadores foram ótimos, mas a gestão e a assistência foram falhas, ignorantes e preconceituosas.
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
DESRESPEITO - No Brasil, 77% dos deficientes se sentem desrespeitados
No Brasil, 77% dos deficientes se sentem desrespeitados. Para 87%, nenhuma ou poucas das ruas estão adaptadas em sua cidade - AGÊNCIA ESTADO, 14/12/2010 - 09:20 - ATUALIZADO EM 14/12/2010 - 09:22
Mulheres, negros e deficientes ainda são minoria nas maiores empresas.
Pessoas com deficiência não têm seus direitos respeitados no país. Essa é a opinião de 77% dos 1.165 portadores de deficiência entrevistados na pesquisa sobre a condição de vida dos deficientes no Brasil, feita pelo DataSenado, entre 28 de outubro e 17 de novembro. O estudo foi realizado com base no cadastro do Instituto Brasileiro dos Direitos da Pessoa com Deficiência (IBDD), com 10.273 registrados.
"As pessoas se sentem sem acesso aos serviços, desrespeitadas no seu direito de ir e vir, e o importante é que elas estão percebendo isso. O preconceito ficou tão natural, como quando um deficiente físico é carregado para entrar no ônibus que não tem elevador, que as pessoas não percebem como preconceito", observou a superintendente do IBDD, Teresa Costa D'Amaral.
A pesquisa mostra que os prédios públicos estão mais adaptados (18% responderam que a maioria tem acesso) que os comerciais (12% de respostas favoráveis). Mas as ruas e calçadas são o grande entrave para a locomoção - para 87%, nenhuma ou poucas das ruas estão adaptadas em sua cidade. Quatro em cada dez entrevistados deixaram de ir a algum lugar porque a estrutura física não estava adaptada.
Essa falta de adaptação também compromete o lazer - 64% dos deficientes físicos e 51% dos visuais gostariam de praticar esportes, mas não podem por falta de acesso; 25% dos deficientes auditivos gostariam de ir ao teatro; e 23% dos deficientes visuais iriam ao cinema, se as salas fossem adaptadas.
Uma Questão de Respeito - MAURICIO JOFFRE DA SILVA | SP / LORENA | 14/12/2010 10:32
Adaptar os lugares para serem frequentados pelos deficientes físicos, é uma questão de respeito. Devemos respeitar os deficientes físicos, porque ninguém tem culpa de ter nascido deficiente ou até mesmo ter adquirido uma deficiência num acidente, entre outros. Isso é também uma questão que podemos chamar de direitos humanos. São direitos daqueles que não enxergam, os cadeirantes, aqueles que andam de muletas ou bengalas. Esses sofrem muito com calçadas em más condições, bueiros mal tampados, os quais correm o risco de cair dentro deles. Como vi ontem numa reportagem pela telelvisão, muitos se machucam, batendo contra guias mal colocadas, enfim, há muito o que fazer.
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
DEFICIÊNCIA COM ÁGIO - Justiça vê retrocesso em exigência de cotas
Deficiência com ágio. Justiça vê retrocesso em exigência de cotas - Por Alessandro Cristo, Consultor Jurídico, 06/09/2010.
Que a política de inclusão de portadores de deficiência física no mercado de trabalho adotada pelo governo federal iria causar estranhas distorções muita gente previu. Agora, porém, a própria Justiça se convence disso. Uma decisão do Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região, com sede na capital paulista, livrou a operadora de planos de saúde Omint de pagar uma multa de R$ 7,5 mil ao Ministério do Trabalho por não cumprir sua cota de empregados com deficiência. Além de mandar a União devolver o valor à empresa, a corte reconheceu deformidades provocadas pela falta de critério da obrigação.
Em acórdão publicado na última segunda-feira (30/8), a desembargadora Rita Maria Silvestre, relatora do recurso levado pela empresa ao tribunal, citou exemplos do que a mera imposição de multas às empresas, sem a preocupação com a formação dos candidatos, tem causado à sociedade. Uma simples busca na internet mostrou casos, segundo ela, “de pessoa que simulou surdez em exame de seleção, de portadores de deficiência segurados da Previdência Social que preferem receber o benefício a retornar ao mercado de trabalho, e de empresas que, para se livrarem das multas, acabam contratando pessoas portadoras de deficiência sem qualquer condição de trabalho, apenas para preencher a cota exigida por lei”.
O voto vencedor da desembargadora na 9ª Turma da corte questiona a efetividade da norma que entrou em vigor em 1991, e que só foi regulamentada pelo Ministério do Trabalho e Emprego dez anos depois. O artigo 93 da Lei 8.213/1991 obriga as empresas a preencherem parte de seus quadros de funcionários com empregados com deficiência. O mínimo permitido é de 2% das vagas, para quem tem até 200 empregados. Organizações com mais de mil contratados estão sob a cota de 5%. Em 2001, a Instrução Normativa 20/2001 do MTE orientou a aplicação da regra, e os auditores do Trabalho passaram a multar quem estava fora dos padrões.
A medida gerou uma corrida desesperada por profissionais, que rapidamente sumiram do mercado. Entidades de apoio aceleraram o treinamento de deficientes para um ritmo industrial, mas a demanda ainda vence a oferta. Para a desembargadora Rita Silvestre, essa escalada desviou o curso traçado pela lei, “que é o de trazer o portador de deficiência ao convívio social, como uma pessoa produtiva, igual às demais, desenvolvendo seus talentos, aptidões, habilidades, com efeitos benéficos em sua auto-estima, e não de retirá-lo do convívio familiar, para que cumpra horário de trabalho sem função alguma”, diz. Na prática, segundo a opinião da julgadora, a emenda saiu pior que o soneto. O trabalhador nessas condições, ela afirma, acabará “mais inferiorizado do que se não tivesse emprego”.
Visão estrábica
Dados do IBGE apresentados pela Advocacia-Geral da União para contrariar a Omint no processo apontaram a existência de 24,6 milhões de portadores de deficiência no país, o equivalente a 14,5% da população. Para o procurador federal Homero Andretta Junior, que representou a União, o número comprova que não há escassez no mercado e a operadora poderia ter preenchido sua cota se quisesse. Ele também argumentou que uma procura rápida na internet pelos termos “deficiente físico”, “procura” e “emprego” resultou em 12,1 mil ocorrências no buscador Google, 36 mil no Cadê, e 3,7 mil no UOL.
Mas a desembargadora desmontou os argumentos ao confrontar as informações com notícias divulgadas pelo próprio Ministério do Trabalho. O site da pasta relatou, em 2007, que um grupo de trabalho formado por representantes do ministério, de empregadores e de empregados questionou o IBGE quanto aos critérios adotados na contagem de deficientes feita no Censo de 2000. “O documento entregue aponta alguns aspectos técnicos e metodológicos adotados no Censo/2000/IBGE que divergem ou se contrapõem à conceituação de deficiência adotada por outros órgãos e entidades, como o Ministério da Saúde, Organização Mundial de Saúde – OMS e Organização Panamericana de Saúde – Opas”, diz a notícia.
“O grupo constatou como divergente, ainda, a forma como foi definida a investigação das variações de deficiência ou de incapacidade, que teve como estratégia o questionamento subjetivo do grau da incapacidade sentido pelo indivíduo, no momento em que utilizava os suportes necessários para seu cotidiano. Essa generalização de dados e a forma de interpretação em sentimentos subjetivos podem ter elevado consideravelmente as taxas brasileiras”, completa a nota publicada no dia 17 de abril de 2007.
Rita Silvestre diz ainda que a quantidade de respostas encontradas pela AGU nos buscadores da internet para deficientes desempregados não eram exatos por incluírem “resultados repetidos inúmeras e inúmeras vezes”, e situações que “em nada aproveitam àqueles que têm como missão arregimentar PPDs [profissionais portadores de deficiência] para postos de trabalho”.
Para a advogada Gilda Figueiredo Ferraz, autora do recurso da Omint ao TRT, a decisão é “emblemática e deve orientar a jurisprudência sobre o assunto”. Segundo ela, a interpretação equivocada da lei “tem depositado apenas nos ombros da iniciativa privada a obrigação de inserir os portadores de deficiência no mercado de trabalho a qualquer custo e sem qualquer envolvimento do Estado”. A empresa, segundo ela, tenta atingir a cota determinada, mas tem enfrentado dificuldades para encontrar pessoal capacitado. “Como é possível permitir a aplicação de multas a empresas que têm tentado suprir a própria deficiência do Estado?”, questiona. Por estar na faixa entre 200 e 500 empregados, a Omint é obrigada a preencher 3% dos postos com portadores de deficiência.
Em seu voto, a desembargadora criticou falhas da administração pública no processo de inclusão, como na educação e formação dos candidatos, assim como de não perceber que, “conforme a atividade preponderante da empresa, específicas deficiências inviabilizam a adequação da pessoa à função”. É necessário, ela diz, “respeitar o tipo de deficiência em relação ao trabalho que será realizado. A capacitação profissional é degrau obrigatório do processo de inserção social”. A decisão, por hora, anulou o débito fiscal da Omint. A União ainda pode recorrer.
Que a política de inclusão de portadores de deficiência física no mercado de trabalho adotada pelo governo federal iria causar estranhas distorções muita gente previu. Agora, porém, a própria Justiça se convence disso. Uma decisão do Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região, com sede na capital paulista, livrou a operadora de planos de saúde Omint de pagar uma multa de R$ 7,5 mil ao Ministério do Trabalho por não cumprir sua cota de empregados com deficiência. Além de mandar a União devolver o valor à empresa, a corte reconheceu deformidades provocadas pela falta de critério da obrigação.
Em acórdão publicado na última segunda-feira (30/8), a desembargadora Rita Maria Silvestre, relatora do recurso levado pela empresa ao tribunal, citou exemplos do que a mera imposição de multas às empresas, sem a preocupação com a formação dos candidatos, tem causado à sociedade. Uma simples busca na internet mostrou casos, segundo ela, “de pessoa que simulou surdez em exame de seleção, de portadores de deficiência segurados da Previdência Social que preferem receber o benefício a retornar ao mercado de trabalho, e de empresas que, para se livrarem das multas, acabam contratando pessoas portadoras de deficiência sem qualquer condição de trabalho, apenas para preencher a cota exigida por lei”.
O voto vencedor da desembargadora na 9ª Turma da corte questiona a efetividade da norma que entrou em vigor em 1991, e que só foi regulamentada pelo Ministério do Trabalho e Emprego dez anos depois. O artigo 93 da Lei 8.213/1991 obriga as empresas a preencherem parte de seus quadros de funcionários com empregados com deficiência. O mínimo permitido é de 2% das vagas, para quem tem até 200 empregados. Organizações com mais de mil contratados estão sob a cota de 5%. Em 2001, a Instrução Normativa 20/2001 do MTE orientou a aplicação da regra, e os auditores do Trabalho passaram a multar quem estava fora dos padrões.
A medida gerou uma corrida desesperada por profissionais, que rapidamente sumiram do mercado. Entidades de apoio aceleraram o treinamento de deficientes para um ritmo industrial, mas a demanda ainda vence a oferta. Para a desembargadora Rita Silvestre, essa escalada desviou o curso traçado pela lei, “que é o de trazer o portador de deficiência ao convívio social, como uma pessoa produtiva, igual às demais, desenvolvendo seus talentos, aptidões, habilidades, com efeitos benéficos em sua auto-estima, e não de retirá-lo do convívio familiar, para que cumpra horário de trabalho sem função alguma”, diz. Na prática, segundo a opinião da julgadora, a emenda saiu pior que o soneto. O trabalhador nessas condições, ela afirma, acabará “mais inferiorizado do que se não tivesse emprego”.
Visão estrábica
Dados do IBGE apresentados pela Advocacia-Geral da União para contrariar a Omint no processo apontaram a existência de 24,6 milhões de portadores de deficiência no país, o equivalente a 14,5% da população. Para o procurador federal Homero Andretta Junior, que representou a União, o número comprova que não há escassez no mercado e a operadora poderia ter preenchido sua cota se quisesse. Ele também argumentou que uma procura rápida na internet pelos termos “deficiente físico”, “procura” e “emprego” resultou em 12,1 mil ocorrências no buscador Google, 36 mil no Cadê, e 3,7 mil no UOL.
Mas a desembargadora desmontou os argumentos ao confrontar as informações com notícias divulgadas pelo próprio Ministério do Trabalho. O site da pasta relatou, em 2007, que um grupo de trabalho formado por representantes do ministério, de empregadores e de empregados questionou o IBGE quanto aos critérios adotados na contagem de deficientes feita no Censo de 2000. “O documento entregue aponta alguns aspectos técnicos e metodológicos adotados no Censo/2000/IBGE que divergem ou se contrapõem à conceituação de deficiência adotada por outros órgãos e entidades, como o Ministério da Saúde, Organização Mundial de Saúde – OMS e Organização Panamericana de Saúde – Opas”, diz a notícia.
“O grupo constatou como divergente, ainda, a forma como foi definida a investigação das variações de deficiência ou de incapacidade, que teve como estratégia o questionamento subjetivo do grau da incapacidade sentido pelo indivíduo, no momento em que utilizava os suportes necessários para seu cotidiano. Essa generalização de dados e a forma de interpretação em sentimentos subjetivos podem ter elevado consideravelmente as taxas brasileiras”, completa a nota publicada no dia 17 de abril de 2007.
Rita Silvestre diz ainda que a quantidade de respostas encontradas pela AGU nos buscadores da internet para deficientes desempregados não eram exatos por incluírem “resultados repetidos inúmeras e inúmeras vezes”, e situações que “em nada aproveitam àqueles que têm como missão arregimentar PPDs [profissionais portadores de deficiência] para postos de trabalho”.
Para a advogada Gilda Figueiredo Ferraz, autora do recurso da Omint ao TRT, a decisão é “emblemática e deve orientar a jurisprudência sobre o assunto”. Segundo ela, a interpretação equivocada da lei “tem depositado apenas nos ombros da iniciativa privada a obrigação de inserir os portadores de deficiência no mercado de trabalho a qualquer custo e sem qualquer envolvimento do Estado”. A empresa, segundo ela, tenta atingir a cota determinada, mas tem enfrentado dificuldades para encontrar pessoal capacitado. “Como é possível permitir a aplicação de multas a empresas que têm tentado suprir a própria deficiência do Estado?”, questiona. Por estar na faixa entre 200 e 500 empregados, a Omint é obrigada a preencher 3% dos postos com portadores de deficiência.
Em seu voto, a desembargadora criticou falhas da administração pública no processo de inclusão, como na educação e formação dos candidatos, assim como de não perceber que, “conforme a atividade preponderante da empresa, específicas deficiências inviabilizam a adequação da pessoa à função”. É necessário, ela diz, “respeitar o tipo de deficiência em relação ao trabalho que será realizado. A capacitação profissional é degrau obrigatório do processo de inserção social”. A decisão, por hora, anulou o débito fiscal da Omint. A União ainda pode recorrer.
terça-feira, 19 de outubro de 2010
PESSOAS COM DEFICIÊNCIA - Cotas em descompasso com o mercado de trabalho
PESSOAS COM DEFICIÊNCIA - Mercado de trabalho: cotas em descompasso - Clarisse de Freitas - ANA PAULA APRATO/Jornal do Comercio RS, 18/10/2010.
Moreira, que tem deficiência visual, teve que persistir até conseguir uma vaga.
Prestes a completar 20 anos, ainda não decolou a lei que determina que empresas com 100 ou mais funcionários destinem parte de suas vagas a deficientes e estabelece cotas mínimas de 2% a 5% do quadro funcional. Sobram oportunidades para profissionais que se enquandram no perfil das cotas. Um levantamento feito pela Fundação Gaúcha do Trabalho e Ação Social (FGTAS) revela que apenas 13,69% das vagas abertas no Rio Grande do Sul para trabalhadores com deficiência, desde 2005, foram preenchidas.
Encaixar-se no perfil da vaga não é garantia de ficar com ela. Entre as pessoas cadastradas para essas oportunidades, 44,26% não conseguem uma colocação. Para a presidente da FGTAS, Erli Terezinha dos Santos, o descompasso se dá, fundamentalmente, porque a cultura empresarial não assimilou a proposta da legislação que determina a inclusão social (Lei 8.213/91). “Temos no Rio Grande do Sul um trabalho pioneiro, que começou na década de 1980, mas ainda hoje percebemos a dificuldade dos empresários em perceber que é preciso ser mais flexível na hora de contratar uma pessoa com deficiência (PCD). Isso porque a falta de oportunidades que tradicionalmente são oferecidas faz com que essas pessoas tenham menor escolaridade e menos experiência”, afirma.
A FGTAS, detalha Erli, faz um trabalho intenso tanto para conscientizar os gestores quanto para qualificar quem busca uma colocação dentro das cotas estabelecidas na lei. Para isso, além de destinar verbas específicas, a entidade – que atua em conjunto com o Sistema Nacional de Empregos (Sine) – faz convênio com organizações da sociedade civil que ofereçam a qualificação e a assessoria na colocação de funcionários com esse perfil.
Em Porto Alegre, uma das entidades conveniadas ao FGTAS é o Projeto Rumo Norte, mantido pela Sociedade Literária e Caritativa Santo Agostinho, das Irmãs Escolares de Nossa Senhora. Por meio dessa parceria, 242 pessoas foram encaminhadas para as empresas entre o início de 2008 e agosto de 2010. Os números, porém, mostram uma redução expressiva das contratações entre 2008 e 2009, de 132 para 56 colocações. Se, por um lado, o dado é reflexo da crise econômica do período, por outro pode sinalizar o receio do empresariado quanto à combinação da turbulência financeira ao custo das adaptações necessárias para receber uma pessoa com deficiência.
Há, ainda, a falta de percepção do empresariado quanto às capacidades desses trabalhadores. No Projeto Rumo Norte existem diversos exemplos de profissionais capacitados, alguns com curso superior, que são preteridos por limitações como a surdez, que impossibilita que a pessoa atenda ao telefone, mas que não impede a realização da maior parte das demais tarefas administrativas, nem a comunicação por escrito. Segundo a entidade, surdos, cegos, tetraplégicos e deficientes intelectuais são os grupos com maior dificuldade de inserção.
“É preciso ter atenção a um fator importante, que é o aumento do rendimento total do trabalho de uma equipe que inclui pessoas com deficiência. Existe, claro, um custo para a aplicação de um programa de inclusão, mas ele varia muito de um caso para outro. Mas há, também, um ganho substancial com a humanização que acontece no ambiente de trabalho e o reflexo que a vontade de aproveitar a oportunidade do portador de deficiência tem no desempenho de todo o grupo. O rendimento geral aumenta”, observa o diretor de Recursos Humanos da GKN, Euclécio Zanetti.
Para ele, é fundamental que a empresa esteja preparada para olhar o indivíduo e suas capacidades e proporcione oportunidades de treinamento, desafios e, claro, coloque o trabalhador portador de deficiência em funções importantes para o processo produtivo. Desta forma, explica o gestor, a autoestima do trabalhador cresce e a equipe entende que há um profissional além das barreiras físicas ou intelectuais que o colocam como PCD. “Não dá para imaginar que esses profissionais vão chegar prontos. Até porque a sociedade oferece poucas oportunidades de formação a eles”, argumenta Zanetti.
A formação e o aperfeiçoamento das pessoas portadoras de deficiência da GKN, assim como da maior parte das empresas que adotam programas de inclusão, são feitos, em grande parte, através de convênios com organizações da sociedade civil. No caso do projeto Superação, coordenado por Zanetti, a parceria foi feita com a Fundação Pestalozzi de Brochier, que também teve papel importante na orientação para as mudanças necessárias para que a empresa fosse acessível a todos os deficientes. Foram instalados, por exemplo, marcadores no chão nos ambientes de trabalho onde atuam deficientes visuais.
“A sociedade ainda não absorveu essa gama de conhecimentos que as entidades sociais têm e que são fundamentais no processo de treinamento, seleção e inserção dos portadores de deficiência no mercado de trabalho. Mas , infelizmente, também são incipientes as iniciativas de apoio a essas entidades. Assim, o trabalho feito não é expandido, muitas vezes, por falta de recursos”, observa Gisele de Oliveira, pedagoga empresarial do Projeto Rumo Norte.
Solidariedade e seriedade são as chaves para a mudança cultural
O preparo das equipes operacionais e de gestores para agir com solidariedade e seriedade é apontado como peça crucial para que um programa de inserção de pessoas com deficiência (PCD) funcione. Do contrário, corre-se o risco de ter esses indivíduos “encostados” em funções irrelevantes e desconectados da empresa e do grupo. O alerta é feito pelo diretor de Recursos Humanos da GKN, Euclécio Zanetti.
Ele relata o processo de aplicação do projeto Superação na empresa, que após um acordo com a Superintendência Regional do Trabalho e Emprego (SRTE), foi estruturado em etapas. “A primeira turma que entrou na empresa foi de pessoas com deficiência intelectual. Alguns, com mais de 40 anos, agiam como se tivessem 10. Conseguimos explicar o que era esperado deles em uma linguagem acessível e fixamos metas. É impressionante a vibração desse grupo quando alcança a meta. Eles nos surpreenderam, também, por pedir novos desafios, seguir à risca as normas de convívio e segurança e por exigir que todos os demais também o façam”, contou.
Ao ir ajustando as tarefas delegadas aos funcionários com deficiência às habilidades por eles demonstradas e aos constantes pedidos de melhor aproveitamento de suas capacidades, a GKN foi a primeira empresa do Brasil a ter um cego total trabalhando com a manutenção em rolamentos de alta precisão.
Emanoel Moreira, de 23 anos, conta que só conseguiu chegar ao programa depois de um ano de visitas ao Sistema Nacional de Emprego (Sine). “Três vezes por semana eu era o primeiro a chegar”, diz. Ele atribui a falta de oportunidades ao fato de as empresas terem dificuldades de designar uma tarefa para um trabalhador que não enxerga. Por fim, em 2008, foi incluído no programa da GKN para trabalhar como telefonista.
“Eu achava pouco, porque ficava muito tempo ocioso. Fui insistente e consegui passar para a área industrial, na área de arquivo”, relata. Mas essa experiência também não lhe pareceu suficiente. Após um mês, Moreira conseguiu uma oportunidade que fosse desafiadora de verdade, foi quando ele entrou no laboratório de manutenção de componentes da indústria. “Quando as pessoas descobrem o que eu faço, meu conceito vai lá em cima. Como se eu estivesse um pedestal. Mas para conquistar isso, foi muito importante a paciência dos chefes e, principalmente, do meu chefe imediato, Rodrigo Silva. Ele me treinou e não desistiu quando nesse processo eu danifiquei peças e gerei custo para a empresa”, conta Moreira. Ele afirma que boa parte do bom relacionamento que tem hoje dentro da indústria veio da sua postura, que rompeu o receio dos demais colegas em lidar com um portador de deficiência.
Para o diretor de Recursos Humanos, a mudança cultural precisa ir além dos muros da empresa. Como muitas vezes o trabalho na indústria representa o primeiro emprego para o PCD, a equipe de psicólogos da empresa acompanha, inclusive, a família do funcionário. Isso para que a atividade seja entendida e valorizada, além de evitar que os parentes tirem dele o direito de usufruir de sua renda como qualquer outra pessoa.
Para a gestora do programa de inclusão da Unimed Porto Alegre, Estela Marcadella, o trabalho de integração e preparo das equipes para a diversidade precisa ser permanente, porque a naturalidade no trato com colegas que tenham alguma limitação surge da conscientização e da experiência.
Para superar eventuais resistências, a cooperativa conta com o apoio da organização social Desenvolver, que presta o auxílio a partir de uma condição neutra na relação de trabalho e, por isso mesmo, tem liberdade de acompanhar a rotina do colaborador PCD e ajudá-lo a conquistar o apoio necessário na empresa e fora dela ao
seu entrosamento no ambiente de trabalho.
“Temos aqui casos diversos, com um número importante de surdos trabalhando e, por eles, introduzimos em nossa rotina o ensino de Libras (a linguagem de sinais) para todos os colaboradores e o uso de tradutores em sinais em todos os seminários e eventos internos”, afirma a diretora de RH da Unimed, que conta com 27 PCDs no quadro de funcionários.
Estela ressalta que compete ao empresariado buscar pessoas para agregar valor por suas competências. Além dos conhecimentos práticos, ela vê nos colaboradores com deficiência intelectual ou física um alto nível de superação. “Isso serve de fator de mobilização em equipes que foram preparadas para receber e entender a diversidade”, afirma.
Consultora trabalha para que empresas acompanhem o rumo da história
O trabalho de consultoria da pedagoga empresarial Gisele Oliveira, especialista em Gestão de Recursos Humanos, poderia ser definido como parte do processo necessário para que as empresas acompanhem o rumo da história, ao menos no que diz respeito à relação da sociedade com as pessoas portadoras de deficiência.
A trajetória profissional da consultora está vinculada à abertura de processos de integração pela própria condição dela. Gisele nasceu com deficiência visual total. A aceitação e o apoio da família, que fez questão de lhe proporcionar educação formal em escolas inclusivas, são apontados por ela como a base para que as relações fora do ambiente familiar se deem com naturalidade e que ela tenha conseguido construir uma carreira e formar uma família.
“O que eu percebo é que estabelecer uma relação com uma pessoa com deficiência não é diferente do processo de relacionamento com qualquer estranho. No começo se olha com desconfiança, depois se reconhecem as habilidades e características pessoais e aí se estabelece, através do envolvimento emocional, da empatia, uma relação. O que acontece com o deficiente é que, no primeiro olhar, já surge questões como quais serão as limitações, se a pessoa será capaz de cooperar ou que grau de independência ela alcança”, diz. “Tanto o portador de deficiência tem que aprender a fazer compensações, quanto a empresa tem que estimular a adaptação dele ao ambiente. Tem que enxergar a pessoa”, explica.
Gisele diz que uma das formas de compensação para a inclusão, muito importante para quem é deficiente visual, é aprender racionalmente a combinar cores que nunca viu e desenvolver mecanismos de entender os tons. Ela faz combinações a partir de conceitos como juntar tons de uma mesma cor ou combinar peças de cores neutras com uma única peça colorida.
“Há alguns anos fui chamada por uma grande empresa para prestar alguns trabalhos de consultoria. É uma empresa que eu quero para o meu futuro. Mas vi que precisava estar melhor preparada. Por isso, além das formações que tenho, de pedagogia empresarial e orientação escolar, fui buscar um curso de psicologia. Como qualquer profissional, tenho que estar bem qualificada para fazer meu trabalho. Independente da minha deficiência, quero ser valorizada pelas minhas capacidades e habilidades”, assegura.
COMENTÁRIO
PRÊMIO DE RESPONSABILIDADE SOCIAL INSTITUTO PRÓ-CIDADANIA - O Instituto Pró-Cidadania realizará a 1ª edição do Prêmio de Responsabilidade Social, apresentando ao mercado as melhores empresas, parceiras do Instituto, na gestão de inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho e na sociedade. O evento contará com a participação de grandes empresas, que serão premiadas em 7 categorias. Nessa ocasião, estarão presentes presidentes, diretores e gestores de empresas nacionais e multinacionais. Nessa oportunidade, ocorrerá o lançamento oficial da Rede IPC; a divulgação da participação do Instituto Pró-Cidadania na Reatech 2011; o lançamento do conceito e da marca 4º Setor e também a largada para o 2º Prêmio de Responsabilidade Social do Instituto Pró-Cidadania, que acontecerá em outubro de 2011. O evento será um marco histórico para o Instituto Pró-Cidadania e para as empresas premiadas e será realizado no dia 27 de outubro de 2010, no Centro Brasileiro Britânico, às 19h, em São Paulo/SP. Sandra Regina Carvalho Boschilia - 18/10/2010 - 11h50.
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